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ENCRUADO BLOG DO NELSON ALEXANDRE


Paridos e Rejeitados

Seria injusto dizer que não ganhei nada com os Contos Maringaenses. Nada financeiro, é verdade. Ganhei amigos, alguns bons parceiros de bar e alguns textos que ficaram e ficarão gravados em minha mente por muito tempo. Muitos destes textos são de autoria de um cara chamado Nelson Alexandre.
Vê-lo publicar seu Paridos E Rejeitados não traduz apenas o sentimento bom de ver um amigo alcançar um sonho. É Também a alegria de ver as letras maringaenses brilharem na voz de um grande escritor. Ver o Nelson com seu livro editado é, desde já, histórico: um dos grandes escritores de uma nova safra, advinda de blogs e de espaços virtuais. É o porta-voz de uma geração que se conheceu antes pela internet do que por um simples aperto de mão e, antes de qualquer um tecer elogios pro outro, já haviam proliferados Curtirnas redes sociais.
Ver o Nelson ao vivo autografar seu Paridos e Rejeitados é, desde já, memorável, desde já um marco para ser lembrado entre os nossos e entre a literatura maringaense. Tenho certeza – como já a tive em alguns momentos – que nesta quarta-feira a história estará sendo feita diante dos nossos olhos. Um curto passo para um feio barbudo que não escreve sobre Maringá, mas sim sobre Space City. Um grande passo para um escritor que, certamente, publicará muitos e muitos livros em sua vida.
Tenho a mania – e alguns tomam o ato como mostra de exibicionismo ou de tentar demonstrar cultura – de, redundantemente, citar excertos de livros alheios. Pelo contrário, justifico-me: não cito para me promover, mas simplesmente para dizer que, se eu reproduzo determinados trechos, é porque eu nunca seria capaz de condensar a profundidade daquelas linhas com algo que seja de minha autoria. Gosto, confesso, de condensar as obras alheias que me agradam em máximas que possam sintetizar o pensamento do autor, naqueles aforismos que entram por nossa cabeça a deixam martelando, martelando. Por que digo isso? E agora?
   Porque simplesmente o Nelson é um desses escritores (como Borges, como Saramago), que quando o leio, penso, algumas vezes: “porra, esse trecho tem que ser a citação de algum conto meu!”
Exemplifico com alguns trechos:

“Que cheiro de queimado”.
“É o cheiro do inferno”, eu disse num lamurio que saiu entre os dentes.
Ela balançou a cabeça de forma negativa, colocou o jornal na minha frente, serviu o café, e não trocamos mais nenhuma palavra.

***

“E aí gente fina? Seu célebro é fratulento?
HEIN?
É fratulento?
NÃO...
Me diz a razão.
Silêncio.
Me diz, vai!
EU ME CAGUEI TODO...
Huuummm... Porra, então vai fedê lá no inferno.”  

***

“Sou o Homem Elefante.” Disse.
“Tente não ser, como eu tento não ser uma boneca de plástico.” Respondeu

***

“Dançavam entrelaçados como dois cavalos marinhos, quando as luzes do mundo resolveram se apagar. Dez horas. Toque de recolher”.

***

Nunca gostei de despedidas, mas o suicídio sempre me atraiu. Deus me livre, você deve estar pensando, mas e daí, não gostou? Vá ler Bianca. Ninguém é obrigado a ler o que não gosta.

***

Sou um cronista encruado, mas em meu coração sou o piloto do maior foguete envenenado rumo à lua, essa musa de abandonados e reconciliados. Pra quem quiser me amar, meu coração é um bar de portas abertas esperando uma cerveja gelada e um par de mãos femininas para fazer suturas daquilo que já está curado. E tenho dito

***

"Sou mulher e sou tua". Encontrado anos depois numa praia de Santos, dentro de uma garrafa de merlot, um bilhete tinha o seguinte dizer: "Que venha a primavera, inverno aqui, não há mais..."

***
E a minha preferida:

Depois dessa escolha, o negócio é agarrar-se a essa ideia com dentes e unhas. Desejar e colocar em prática esse desejo que quer se libertar de correntes e cadeados.  É  preciso, ainda, extrair desse desejo todo o sumo que nele existe, cuspindo toda a sobra, todo o resíduo que insiste em querer retardar esse processo mágico.

Você fica na distinta problemática de querer matar ou morrer.

Ler o Nelson, para um apreciador de aforismos e frases impactantes, como eu, é um verdadeiro néctar, pérolas devidamente separadas dos porcos. Mas não é só isso. Ler o Nelson é sentir a poesia crua e delicada que vem de Space City. E se eu, mero leitor, pudesse conceituar na Wikipédia a definição deste incerto local, assim definiria: “Local em que prevalece a antinomia de brutalidades de mortes e vidas sem sentido coexistindo pacificamente com delicados poetas que se vangloriam de torcer para o time local e buscam incessantemente o amor. Local em que habitam sujeitos que não sabem se desejam matar ou morrer, Sheilas Chocolate, Grutas das quais jorram ouro puro e verdadeiros Capitães que sabem a importância que tem seu navio e seu leme”.
Não por acaso chamo meu amigo Nelson de Capitão. Consta no conto “E que venha a Primavera” a história do Capitão Nelson e do provinciano Alexandre, respectivamente Jekyll e Hyde de Space City.
Que venha a primavera, Capitão Nelson. Que venha a primavera, pai do prodigioso Arturo. Que venha a primavera de uma História que começará nesta quarta-feira. Que venha a primeira primavera de muitas de nossas vidas.

Seu fã.
Marquinhos. Ou Astorga. (Marcos Peres)


Escrito por Nelson Alexandre às 14h32
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Sobre o novo livro: Poemas para quem não me quer
 


Se você for uma leitora muito sensível, não aconselho este livro.  Sem dúvida não foi escrito para moças delicadas, ou senhores que prezam os bons costumes da tradição, segurança da família e da propriedade. Nestes casos é melhor afastar-se, ou correr o risco de se contaminar. Sim, porque apesar de tratar reiteradamente da arte e do amor (ou sua impossibilidade?), os poemas de Nelson Alexandre são sujos, respingados de lama e cerveja; mais ainda: de sangue vermelho cão. Solitário pelas ruas e noites de Maringá (metonímia do mundo moderno), o poeta uiva seus desejos e suas raivas, seus protestos contra uma sociedade desencantada, desumana e pragmática onde poesia não tem vez. Rejeitando o insosso experimentalismo técnico vazio de emoção, de sonhos e (muitas vezes) de ideias críticas, o audaz almirante Nelson dialoga com uma tradição poética povoada de rebeldes, poetas marginais e beatniks, amantes do blues e do jazz, do underground e da boca do lixo. Mas não fica nisso, não. Também há sintonia com o cinema de arte, os filmes e romances classe B, assim com os quadrinhos escatológicos. Tudo isso sem deixar de lado uma sensibilidade Plathiana, um delírio Leminskiano, uma bebedeira Bukowiskiana... Que luxo! E quem não gostar, que se lixe! Salvo o amor para quem escreve, e pelo qual silenciaria... 
 
Marciano Lopes


Escrito por Nelson Alexandre às 12h08
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Escrito por Nelson Alexandre às 10h38
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Escrito por Nelson Alexandre às 14h39
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ROTEIRO PARA DESENVOLVIMENTO, DESEMPENHO E ANÁLISE DO CONTO “CIDADE DE DEUS”, DE RUBEM FONSECA

 

Cidade de Deus

 

O nome dele é João Romeiro, mas é conhecido como Zinho na Cidade de Deus, uma favela em Jacarepaguá, onde comanda o tráfico de drogas. Ela é Soraia Gonçalves, uma mulher dócil e calada. Soraia soube que Zinho era traficante dois meses depois de estarem morando juntos num condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Você se importa?, Zinho perguntou, e ela respondeu que havia tido na vida dela um homem metido a direito que não passava de um canalha. No condomínio Zinho é conhecido como vendedor de uma firma de importação. Quando chega uma partida grande de droga na favela, Zinho some durante alguns dias. Para justificar sua ausência Soraia diz, para as vizinhas que encontra no playground ou na piscina, que o marido está viajando pela firma. A polícia anda atrás dele, mas sabe apenas o seu apelido, e que ele é branco. Zinho nunca foi preso.

Hoje à noite Zinho chegou em casa depois de passar três dias distribuindo, pelos seus pontos, cocaína enviada pelo seu fornecedor em Puerto Suarez e maconha que veio de Pernambuco. Foram pra cama. Zinho era rápido e rude e depois de foder a mulher virava as costas para ela e dormia. Soraia era calada e sem iniciativa, mas Zinho queria ela assim, gostava de ser obedecido na cama como era obedecido na Cidade de Deus.

“Antes de você dormir posso te perguntar uma coisa?”

“Pergunta logo, estou cansado e quero dormir, amorzinho.”

“Você seria capaz de matar uma pessoa por mim?”

“Amorzinho, eu mato um cara porque ele me roubou cinco gramas, não vou matar um sujeito que você pediu? Diz quem é o cara. É aqui do condomínio?”

“Não.”

“De onde é?”

“Mora na Taquara.”

“O que foi que ele te fez?”

“Nada. Ele é um menino de sete anos. Você já matou um menino de sete anos?”

“Já mandei furar a bala as palmas das mãos de dois merdinhas que sumiram com uns papelotes, pra servir de exemplo, mas acho que eles tinham dez anos. Por que você quer matar um moleque de sete anos?”

“Para fazer a mãe dele sofrer. Ela me humilhou. Tirou o meu namorado, fez pouco de mim, dizia pra todo mundo que eu era burra. Depois se casou com ele. Ela é loura, tem olhos azuis e se acha o máximo.”

“Você quer se vingar porque ela tirou o seu namorado? Você ainda gosta desse puto, é isso?”

“Gosto só de você, Zinho, você é tudo pra mim. Esse merda do Rodrigo não vale nada, só sinto desprezo por ele. Quero fazer a mulher sofrer porque ela me humilhou, me chamou de burra na frente dos outros.”

“Posso matar esse puto.”

“Ela nem gosta dele. Quero fazer essa mulher sofrer muito. Morte de filho deixa a mãe desesperada.”

“Está bem. Você sabe onde o menino mora?”

“Sei.”

“Vou mandar pegar o moleque e levar para a Cidade de Deus.”

“Mas não faz o garoto padecer muito.”

“Se essa puta souber que o filho morreu sofrendo é melhor, não é? Me dá o endereço. Amanhã mando fazer o serviço, a Taquara é perto da minha base.”

De manhã bem cedo Zinho saiu de carro e foi para a Cidade de Deus. Ficou fora dois dias. Quando voltou, levou Soraia para a cama e ela docilmente obedeceu a todas as suas ordens. Antes de ele dormir, ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”

“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto”, disse Zinho.

“Sim, eu já esqueci.”

Zinho virou as costas para Soraia e dormiu. Zinho tinha um sono pesado. Soraia ficou acordada ouvindo Zinho roncar. Depois levantou-se e pegou um retrato de Rodrigo que mantinha escondido num lugar que Zinho nunca descobriria. Sempre que Soraia olhava o retrato do antigo namorado, durante aqueles anos todos, seus olhos se enchiam de lágrimas. Mas nesse dia as lágrimas foram mais abundantes.

“Amor da minha vida”, ela disse, apertando o retrato de Rodrigo de encontro ao seu coração sobressaltado.

 

 

PERSONAGENS

 

João Romeiro = Zinho

Soraia Gonçalves

Filho de Sete Anos

A Mãe

Rodrigo

Indivíduos que executaram o filho de sete anos

 

 

ELEMENTOS QUE PERMEIAM UMA ANÁLISE PSICOLÓGICA DOS PERSONAGENS

 

João Romeiro ou Zinho: O personagem caracteriza o duplo em cada indivíduo que se vê inserido em um mundo caracterizado por uma sociedade cada vez mais paltada numa aparência envernizada, que coloca os indivíduos dessa mesma sociedade numa relação vítrea, ou seja, numa fina parede de vidro que separa pessoas que desempenham uma função ativa numa sociedade conservadora, castradora e, que abriga em suas entrelinhas sombrias, o lado negro de cada indivíduo.

João Romeiro, ou Zinho, encaixa-se perfeitamente nessa definição, pois, no modus vivendi do condomínio de luxo onde mora, é conhecido como vendedor de uma firma de importação; é o papel que desempenha numa sociedade organizada e que impõe normas e regras de padrão e conduta para o convívio em coletividade. Homem de emprego estável, com esposa e um determinado status financeiro, essa primeira face de João Romeiro é a face que é palpável e é absorvida por uma esponja de aceitação aos modos pequeno-burgueses da sociedade carioca do final do século XX.

Em contrapartida, Zinho é a face que representa o lado não deglutível (pelo menos oficialmente) dessa mesma sociedade, vizinha dos morros e favelas do Rio de Janeiro.

 Zinho, apesar de ser bem sucedido financeiramente, pois na Cidade de Deus é o chefe do tráfico, não tem o mesmo status social que desfruta no condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Aqui, o duplo de João Romeiro aparece como a figura que aterroriza e impõe por meio da força e da violência:

 

“Zinho era rápido e rude e depois de foder a mulher virava as costas para ela e dormia. Soraia era calada e sem iniciativa, mas Zinho queria ela assim, gostava de ser obedecido na cama como era obedecido na Cidade de Deus”.

 

Soraia Gonçalves: essa personagem também é caracterizada por um duplo que nos remete como o personagem de Zinho, a esse estado de “penumbra” e “luzes” nos elementos ficcionais criados por Rubem Fonseca. Soraia, aparentemente, mostra-se como afirma o narrador, uma pessoa”calada e sem iniciativa”. Essa é a Soraia que a sociedade de consumo de classe média alta, aceita e “absorve”, em seu convívio.

Mas o seu duplo desperta, justamente, dessa falsa passividade. Pois sua passividade está vinculada à ação direta, ao exercício concreto do personagem executar por si só os anseios de vingança e violência.

O lado negro de Soraia está adormecido numa psiquê mórbida que se dá por meio de uma astuta dissimulação que ludibria o lado negro de Zinho.

Em outras palavras, Zinho é a representação da ação da violência em estado concreto. Soraia é a edificação dos planos no nível intelectual por meio da linha de raciocínio fria e calculista, aliada com o charme e a sedução feminina:

 

“Antes de você dormir posso te perguntar uma coisa?”

“Pergunta logo, estou cansado e quero dormir, amorzinho.”

“Você seria capaz de matar uma pessoa por mim?”

“Amorzinho, eu mato um cara porque ele me roubou cinco gramas, não vou matar um sujeito que você pediu?” Diz quem é o cara. É aqui do condomínio?”

“Não.”

“De onde é?”

“Mora na Taquara.”

“O que foi que ele te fez?”

“Nada. Ele é um menino de sete anos. Você já matou um menino de sete anos?”

 

 

Filho de Sete Anos e a Mãe: personagens que mantém presença unilateral no conto. Do lado não-negro da pisquê humana. Esses personagens não apresentam duplicidade psicológica.

 

Indivíduos que executaram o filho de sete anos: também personagens que não apresentam duplicidade, apenas unilateridade voltado para o lado negro.

 

Rodrigo: personagem que funciona como chave-mestra para a maioria do desenvolvimento do conto e peça principal para o desfecho do mesmo.

 

OUTROS ASPECTOS: MODO DE ESCRITA E ESTILO RUBEM FONSEQUIANO

- Expressão da brutalidade do submundo;

- Linguagem marcada de brutalidade;

- Violência “Impressionista” e mutável;

- Há alternância de vozes nos contos “Fonsequianos”, segundo Mikhail Bakhtin,

caracterizando uma luta de “barbárie x cultura”;

- O rude e o excrementício ligam-se a um lirismo negro;

- Narrativa que por muitas vezes vai da prosa ao verso passando por uma “nota” de erudição;

- Exploração da psique humana num dualismo de barbárie e humanidade na “violência nossa de cada dia”;

- Diferenciação de classes sociais nos diálogos de seus contos (uso de latim, italiano, francês, inglês e grego);

- Alusão às personalidades da literatura universal e brasileira;

- Contraponto entre o momento atual e o momento histórico;

- Diálogo de um texto literário com outro texto literário;

- Filiação ao gênero romance policial;

- Rompimento e fusão com outros gêneros;

- Invenção de uma linguagem urbana para sua ficção;

- Uso de símbolos fálicos;

- Reumanização de personagens rejeitados pela sociedade;

- Presença de um vácuo no que diz respeito à relação “Homem e Mulher”;

- Narrativa utilizada como arma de agressão;

- Sintaxe de golpes, cáustica, alucinada e, por vezes, patética;

- Atmosfera opressora do começo ao fim de suas histórias;

- Acidez satírica;

- Marco de antecipação da ruptura em literatura das portas da sexualidade;

- Autor polifônico.

- Exploração da neurose da natureza sexual humana invadindo a linguagem;

- “Vitória” do Tanathos sobre o Ethos.



Escrito por Nelson Alexandre às 14h33
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caricatura12



Escrito por Nelson Alexandre às 18h11
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 “LIBERDADE”

DE FERNANDO

PESSOA

 

 

 

Introdução

 

A escolha de um poema do poeta e dramaturgo Fernando Pessoa, para desenvolver este trabalho de conclusão da disciplina Literatura Portuguesa III foi uma opção pessoal do aluno que sempre ficou intrigado com este poema: “Liberdade”. O material foi extraído da coletânea “Poemas escolhidos”, lançada numa coleção do jornal o Estadão, que veio às bancas de jornal do Paraná e do Brasil em meados do ano de 1997.

O trabalho tem como base a análise desse poema e alguns aspectos nele encontrado:

 

LIBERDADE

                                16-3-1935

                               (Falta uma citação Sêneca)

Ai Que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

 

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha quer não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca.

 

Fernando Pessoa Elencou cinco condições para que o intérprete de símbolos possua para uma distinta análise dos mesmos: Simpatia, intuição, inteligência, compreensão e a quinta seria não uma, mas várias: graça? A mão do superior incógnito ou A conversão do Santo Anjo da Guarda?

Pessoa entendia que cada uma dessas coisas era a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

Seguindo essa linha de raciocínio do grande poeta Português, a primeira estrofe do poema Liberdade parece nos cuspir na cara, mas não de modo escatológico, nervoso, com a investida do coturno Salazarista no meio de nossa cara de verso branco, mas sim, com o cuspe afrodisíaco da alma leve que não tem preocupação com os enlaços da responsabilidade material. Com o compromisso quase classicista do crítico em colocar em formas fixas o que de maneira muito mais livre e sem amarras acadêmicas, é o verdadeiro núcleo do que podemos chamar de liberdade:

 

            Ai Que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler



Escrito por Nelson Alexandre às 18h05
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E não o fazer!

Ler é maçada

Estudar é nada.

O “eu” nos mostra que todos os esforços em fazer uma cópia daquilo que é o ideal fogem da pequenez de nossa análise pueril:

O sol doira

Sem literatura.

Mas se Ler é massada e Estudar é nada, como o poeta nos dá uma válvula de escape para não cairmos no senso comum de acharmos que “liberdade” é apenas um estado onde nos metamorfoseamos em um bicho que pensa ser pensante e que fica com os papos pro ar o dia todo? Não dá. Ele simplesmente injeta em nossa consciência racional que o fluxo das coisas misteriosas do universo de desencadeiam como que por uma condição inata daquele que pode entender e compreender sem ficar fazendo perguntas e indagações que andam sobre a linha do inteligível:

 

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...

 

Além disso, não nos dá uma bússola para navegarmos por mares nunca dantes navegados. O “eu” nos deixa náufragos numa leitura suntuosa que nos afoga e desafoga para nos deparar com um paredão. Um iceberg que é o imprescindível em convencer do inconvencível:

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha quer não!

 

Há, também, a existência do ciclo natural das coisas como as grandes criações de Deus no universo, que vão das formas abstratas ou não palpáveis como a sinestesia da poesia e da bondade, até as palpáveis como a dança as flores e as crianças, numa mostra de sorte e revés ao revelar que o astro rei é um ícone, um símbolo que pode representar a vida e a morte. Fonte da criação e da destruição:

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

Em meio à criação, ou a gênese daquilo que não podemos aprisionar sob o punho ou sob a diminuta capacidade de compreender as incomensuráveis distinções entre o céu e a terra. Dos mistérios mais longícuos do mistério da criação da arte ou do amor, o “eu” evoca o cordeiro Cristão como expoente máximo que faz um contraponto com tudo que já foi mencionado no poema.

Jesus Cristo é a figura que simboliza o ponto de equilíbrio entre o material e o intelectual, e mesmo assim, supera ambos, pois é maior do que eles, sem nunca tê-los ou simplesmente lidos ou estudados:

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca.

 

 

Conclusão

A análise teve como objetivo expor alguns dos aspectos de criação da Poesia de Fernando Pessoa e expor sua fantástica imagística que utilizava por deveras vezes com a maestria do mestre oleiro em sua carpintaria musical de palavras e, levar a lume essas características, num futuro próximo, a alunos e professores.

 

 

Referências

‘Poemas Escolhidos, São Paulo, Brasil, Klick Editora, 1ª edição, julho de 1997.

Dicionário de Termos Literários – Cultrix – São Paulo, 1ª edição, 1974.



Escrito por Nelson Alexandre às 18h04
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